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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

MARIANAS




"Por detrás da alegria e do riso, pode haver uma natureza vulgar, dura e insensível. Mas por detrás do sofrimento, há sempre sofrimento. Ao contrário do prazer, a dor não usa máscara." Oscar Wild em De Profundis

Sempre desconfiei de segredos. Mesmo os confessos. E sozinho dentro da minha cabeça, num canto escuro dentro da minha cabeça, fico calculando que parte daquele segredo foi realmente revelado; sob que véus ele me olha feito uma cadela agradecida. Feito isso, logo espalho esses pensamentos como fumaça de cigarro. Melhor não dar corda ao cáculo das probabilidades. Melhor, talvez, refletir sobre as relações sob outro ponto de vista: "A vida apenas, sem metafísica."

Tento me conter em não gastar horas e neurônios letárgicos a divagar sobre segredos, verdades ocultas e enigmas do gênero. Tenho até um frágil receio de virar um desses teóricos da conspiração com síndrome de louco perseguido. Me reservando o direito de reconhecer meu incômodo e confiar que reconhecendo-o, liberto-me de qualquer inrustimento de vontade.

Acho que a intimidade de almas, seja ela entre amigos, parentes e principalmente entre amantes, na medida em que se aprofunda, revela a sombra latente de fossas abissais. Penso que quanto mais conhecemos uma pessoa, mais reveladoras serão as verdades quando esta já não fizer mais parte da nossa vida. E tudo bem quando Inês é morta. Mas quando não...

Existem segredos e existem verdades ocultas. Há verdades que são só nossas, portanto não são segredos. Mas há verdades que são negligenciadas. Essas, envoltas por camadas de má fé e mesquinhez que deixam um rastro fétido de lodo, como lesma putrefada são geralmente chamadas de segredos. É chato de olhar mas se seguirmos seu rastro, eles revelam sem pudor o que ocultavam: verdades constragedoras para quem as guardava. Fossas abissais na alma...É um caminho. Somos placas tectônicas em constante movimento. Arrotando terremotos. Para os covardes, escondidos atrás de uma máscara cândida e devotada há sempre a frieza e a iminência de pequenos tremores ingratos.

Tenho dito.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

MALLEUS MALEFICARUM

Fiz tudo num dia só: li algumas entrevistas do Lars Von Trier, tentei saber do que se tratava o filme e ao fim do dia, fui, hesitante, experimentar o Anticristo. Digo experimentar porque foi que senti ao me levantar da poltrona em direção às luzes lá fora. A sala de cinema ficou por um par de horas mais escura do que costuma ser e o silêncio dentro dela também surpreendeu. Por um pouco mais de uma centena de minutos o ar ficou mais denso, quase concreto.

Eu me surpreendi muito. Já nos primeiros minutos. Händell, preto e branco, sexo e um sexo balançando na nossa cara; pensei que o Sr. Von Trier não tem nenhum medo de correr riscos. A grandiloquencia desse prólogo exageradamente belo poderia facilmente ofuscar o que viria depois, pensei roendo unhas. Mas ele suprpreende, com uma câmera leeenta estetizada, forçando a gente a acreditar que ele realmente tá se levando a sério. Alguém disse numa das críticas que esse prólogo era uma chatice publicitária e eu acho que este desatento não sacou a fina ironia do Von Trier.

FEMALE TROUBLE

E desde o início também gostei da sensação boa de estar vendo um teatro. Os planos, os enquadramentos, o ritmo, o uso de elementos de outras linguagens e a própria narrativa é tudo teatro. A todo momento vinha alguma coisa a me lembrar de Artaud, Beckett, Strindberg, Jean Cocteau... Um monólogo em que o diretor é também ator ou está em cena. Senti um pouco disso no personagem do Willen Dafoe; tomando as rédeas dos sentimentos dela, guiando, orientando, dando prazos. E ela, se submetendo a uma relação hierárquica, dependente de aprovação a todo tempo.

Ao contrário de tudo que li antes sobre o filme, acho que é um filme de amor. Da natureza do amor como algo desconhecido e ameaçador. Um abismo. Negando o conhecimento pela experiência, a personagem entra no delírio de uma mênade enlouquecida, inflingindo-se toda espécie de castigos típicos de seus carrascos. Vingando-se dos seus algozes em si mesma, indo contra a natureza; sua natureza de mãe, de esposa e principalmente de mulher. E contar essa história da forma como ela é contada é um grandissíssimo mérito. Depois de uma breve bode do Sr. Von Trier, eu, satisfeito, volto a tê-lo como um dos meus prediletos.



sexta-feira, 16 de janeiro de 2009